De auris Trincheira a 14 de Março de 2011 às 18:07
Muitos dos alentejanos, passaram pelos montes e foram e foram ganhões. Que são ganhões? Os Ganhões eram trabalhadores agrícolas indiferenciados, homens com poucos recursos e escolaridade, que tudo faziam no que respeita a trabalhos do mundo agrícola. Mas pouco reconhecidos tratados como animais, dormiam nos estábulos ou ganharias, encima de tábuas e palha ou piorno. O Ganhão aqui era, por assim dizer, um trabalhador de pouca categoria que actuava debaixo das ordens de um capataz conhecido por abegão.
O ganhão fazia serviços pouco especializados, tais como; lavrar com bois, que são guardados e tratados por outro homem denominado “boieiro”; cavar moitas; carregar os molhos de cereais nos carros; etc.
Entre os ganhões de uma casa havia duas categorias: os de “pensão” (anuais, que se acomodavam por muito tempo e que, por vezes, eram encarregados interinos) e os “rasos” (eram temporários, de poucos dias). O ganhão raso era simplesmente máquina de trabalho, ganhava pouco e era constantemente fiscalizado.



. A “casinha dos Ganhões” era o dormitório, a casa de descanso dos ganhões ou dos moços da lavoura, que constituíam uma ganharia. Como se pode supor, tem semelhanças com as casernas dos soldados. Na maioria dos casos era uma casa ampla que acomodava vinte a trinta homens. Toda a criadagem.














Todas estas ganhariam (lugar onde ganhões de acomodavam e dormiam), tinham sempre uma lareira espaçosa, num dos cantos ou no centro, que era por eles designada de chaminé. As paredes eram caiadas de branco, mas na sua maior parte estavam enegrecidas do fumo da lareira. Era aí que se juntava a criadagem nos serões, sentados nos burros (bancos rústicos de pernadas de azinheira) aquecendo-se e enxugando-se das chuvadas que sofriam durante o dia. As tarimbas erguiam-se em redor das paredes, formadas por leitos de carros velhos, portas inutilizadas, tábuas, etc.. Revestidas com rama de piorno, giesta e palha. A copa (vestuário), safões, chapéus as samarras, os feifões, as esteiras e o calçado amontoavam-se, sem que mão bondosa se lembrasse de os arrumar. Mas para os ganhões estava tudo bem. O arranjo, a compostura e a limpeza eram para as mulheres e para as suas casitas de vila ou aldeia.



A comida fornecida aos Ganhões pelo lavrador era frugal, e sempre pouca em quantidade, excepto no pão, que era servido com abundância. O almoço era às 7 da manhã, o jantar ao meio-dia Ao almoço dava-se sopa de cebola ou alho, com conduto de azeitona e meio queijo, o queijo era guardado para familia. Ao sol-posto era a ceia comiam açorda (pão aos bocadinhos, água quente, alho batido, muito pouco de azeite e raramente coentros ou poejos) com azeitonas no Inverno e gaspacho (água fria, bocadinhos de pão, muito pouco azeite e alho esmagado) no Verão. Em certas Herdades comiam todos do Barranhão, que era um grande recipiente onde era preparada a comida, e pelo qual todos tinham de comer à vez, com as suas colheres. O Abegão distribuía toucinho, morcela ou farinheira em partes mais ou menos iguais entre os Ganhõ es. Entre as grandes refeições merendava-se pão com azeitonas, ou outro “conduto” como queijo ou toucinho. Tudo podia variar entre Herdades, e áreas regionais, pois outras haviam que davam refeições como grãos de azeite ou carne (toucinho ou enchidos velhos), cozinhados com hortaliças e batatas (refeição que podia ser dada ao jantar). As gorduras que compunham as refeições eram de origem vegetal e animal, eram dadas em dias certos da semana, sendo as de carne a mais apreciada pelos ganhões, se bem que era sempre muito pouca e por vezes rançosa.
Na hora das refeições, quando o Abegão (que era quem mandava nos Ganhões e distribuía tarefas) chamava os ganhões e os malteses para almoço ou jantar, todos tinham de se tirar o chapéu logo à entrada. Depois de todos sentados, com o Abegão à cabeceira da mesa sempre comprida, mas modestamente construída por grossas tábuas, as cadeiras burros de madeira feitos ramos de arvores (bancos), só podiam principiar a refeição após o chefe dizer - “Com Jesus”. Depois só se levantavam quando o Abegão dissesse - “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo” (aliás o mesmo se passava no principiar e finalizar do dia de trabalho).


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